20/03/09 – Os comerciários empregados do Shopping Vitória manifestaram sua vontade: “Não queremos trabalhar aos domingos.” Foi isso o que disseram a maioria absoluta dos que participaram do plebiscito realizado nesta semana: 60% dos 1076 votantes.
“O Sindicato nunca tinha feito algo parecido, mas os comerciários compareceram em peso e tiveram a oportunidade de demonstrar todo seu repúdio contra essa prática inaceitável de exploração. A mobilização foi grande e a preferência foi por não trabalhar aos domingos sob hipótese alguma.”, afirma o presidente do Sindicomerciários Jakson Andrade Silva.
Esse também foi o voto de Cíntia Freitas: “Estou feliz por poder dizer o que penso. Na loja em que trabalho o movimento não aumenta nos domingos. Sempre é maior aos sábados. O que costuma acontecer é de as pessoas olharem, olharem e nada mais além disso. Para mim, não é um movimento que justique abrir aos domingos”, afirmou a comerciária.
Passados 12 anos desde que o comércio aos domingos foi permitido, Jakson afirma que agora podemos constatar aquilo que o Sindicato sempre tinha dito: “Hoje, o discurso de que o trabalho aos domingos elevaria as vendas e geraria emprego e renda revelou-se uma farsa montada por empresários do setor de shopping-center e das grandes redes de varejo locais e multinacionais”, lembrou o presidente.
Histórico. A luta do Sindicomerciários contra o trabalho aos domingos inicia-se bem antes da edição da famigerada MP 1.539, editada em agosto de 1997 e que flexibilizou o horário de funcionamento do comércio em todo o país. Em março daquele ano, o Sindicato já realizava manifestações em frente ao Carrefour. A multinacional chegou ao Espírito Santo prometendo pleno emprego, geração de renda, vendas fartas e lucro fácil. Na onda do Carrefour, centenas de pequenos e médios supermercadistas viram-se obrigados a também abrir aos domingos temendo a concorrência. Nem as vendas se multiplicaram nem os lucros apareceram. O negócio não compensou. Tanto que a unidade do Carrefour de Vila Velha teve que fechar as portas.
O que se vê, afirma Jakson, é que ao invés de novos empregos, o trabalho aos domingos ampliou a forma desumana a jornada de comerciários, justamente para não contratar mais, além de institucionalizar a hora-extra sem remuneração.
Nesse sentido, vale lembrar que o trabalho aos domingos não veio acompanhado de nenhum direito aos comerciários. Pelo contrário, ao estabelecer a compensação simples da jornada de trabalho, retirou-se o adicional de hora-extra e o direito do repouso semanal remunerado aos domingos.
Além disso, os comerciários que trabalham nesses dias não recém horas-extras, vale-refeição e vale transporte. Mais do que isso. Não existe direito trabalhista específico algum. Isso porque o domingo passou a ser considerado como um dia de trabalho normal. Se o comerciário se recusa a trabalhar, é demitido.
“Em relação à geração de emprego e de novos postos de trabalho, eles nunca vieram. Isso aconteceria se o consumo crescesse significativamente de forma a justificar novas contratações”, acrescentou Andrade.
Próximas ações. A partir do resultado do plebiscito o Sindicato partirá para ações práticas visando garantir o desejo da categoria, seja pela via negocial, seja através da Justiça. “O importante é que prevalecerá a vontade majoritária da categoria”, disse Jakson. “Não fugiremos dessa luta. Ainda mais agora, em que mais do que nunca, os comerciários nos deram um contundente respaldo para isso.”
Os comerciários do shopping Norte-Sul, em Jardim Camburi, também terão oportunidade de dizer o que querem. Na quinta-feira da próxima semana (26/03) um outro plebiscito será realizado com os comerciários de lá. Jakson explica as lojas do Norte-Sul ainda podem abrir no próximo domingo, mas, dependendo do resultado do pleito, também terão que dispensar os funcionários do trabalho dominical.
Desculpa da Crise para demitir. O capitalismo pode estar caindo de podre em outros setores. Mas no ramo dos shoppings a expansão tem sido a tônica. Impulsionada pelo aumento do crédito e do consumo das famílias, a indústria de shopping centers prevê a construção de 32 novos empreendimentos até o fim de 2009, segundo dados da Abrasce (Associação Brasileira de Shopping Centers).
Com as construções, o total de shoppings no país chegará a 399 no fim do próximo ano. Estudo do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) afirma que o setor vive hoje uma fase de consolidação, proporcionada pela entrada de investimento estrangeiro e pelo processo de abertura de capital.
‘Febre dos shoppings’. E não tem tempo quente nem crise. Essa nova “febre de shoppings” é puxada pelo aumento do poder de compra das classes C e D. Com isso, o setor ganhou espaço para o desenho de projetos voltados para “a nova classe média”, com maior apelo popular e também para a classe A, em que o fluxo de clientes é menor, mas o tíquete médio das compras é mais elevado.
Concentração no Sudeste. Atualmente, 55% dos shoppings no país estão concentrados na região Sudeste. O Estado de São Paulo lidera, com 122 unidades. Em termos percentuais, no entanto, a região Centro-Oeste foi a que apresentou a maior expansão no ano passado: 17,86%. Em 2007, o faturamento do setor cresceu 16% e somou R$ 58 bilhões, segundo a Abrasce. O dado inclui receitas de aluguéis de lojas, de estacionamento e de propaganda.
Para o presidente do Sindicato dos Comerciários, Jakson Andrade, esse crescimento joga por terra qualquer desculpa de lojistas querendo responsabilizar a crise para não atender as reivindicações da categoria. “O problema de boa parte dos lojistas do shopping é ganância mesmo. Eles só querem lucrar e os trabalhadores que se lixem!”, constatou Jakson.