Jornal: Valor Econômico
Editoria: Empresas/The Wall Street Journal Americas
Título: Câmbio e renda mudam as lojas de R$ 1.99
Sub-retranca: Indústria local também abastece varejo; Qualidade de importado melhora e atrai classe média
Data: 28/09/2007
Página: A16
Autoria: Raquel Landim
Acesso Online: Exclusivo para assinantes
Aparecido de Oliveira Cruz acordava de madrugada para receber os sacoleiros que chegavam do Paraguai. Os ônibus estacionavam no centro de São Paulo e os sacoleiros percorriam as lojas entregando encomendas. Em 1997, Cido, como é conhecido, possuía duas barracas na rua 25 de março – até hoje o principal centro de produtos populares do país. Ele conta que comprava os produtos de manhã e vendia à tarde, porque o mercado era informal e “tudo era feito à vista, em dinheiro”.
Hoje, aos 44 anos, Cido é dono da importadora Miniprice, que possui dois escritórios, showroom e um depósito. Com portfólio de 300 itens, compra direto da China e vende, muitas vezes a prazo, para atacadistas e lojistas. Ele não revela o lucro da empresa, mas é suficiente para uma vida confortável. Cido já empurrou carrinho na feira, trabalhou como office-boy e, depois de aprender o ofício de ferramenteiro, foi dono de uma pequena indústria de plástico, mas fechou as portas no início dos anos 90. Quando descobriu a 25 de março, conheceu fornecedores, conseguiu crédito e iniciou a importadora. “Não perco chance na vida”, diz.
Continuação:
A história de Cido é parecida com a de outros importadores e lojistas, que transformaram pequenos negócios informais em empresas de porte razoável e, efetivamente, ganharam dinheiro vendendo produtos a R$ 1,99. Desde 1997, quando essa mania chegou ao Brasil, esse setor avançou bastante. A valorização do real, a estabilidade da moeda e a inflação baixa permitiram a essas empresas planejar os estoques, incrementar o mix de produtos, controlar o fluxo de caixa e, conseqüentemente, crescer.
“Esse é um setor marcado pela informalidade que caminha a passos curtos para a formalidade, mas ainda tem muito o que avançar em termos de profissionalização”, avalia o economista Maurício Moura, professor do Ibmec-São Paulo. Ele explica que a estabilidade da moeda é fundamental para que o importador se organize e compre os itens conforme a demanda, evitando gastar com acúmulo de estoque.
Segundo fontes do setor, existem cerca de 40 importadoras de porte médio ou grande trabalhando com produtos populares. Essas empresas, que começaram trazendo dois contêineres por ano, hoje recebem mais de 10 por mês. O setor se organizou politicamente e montou uma associação. No início, o objetivo era se defender do lobby da indústria nacional e da intensa fiscalização da Receita Federal, que apertou o cerco sobre esse setor, no qual persiste o contrabando.
A Associação Brasileira de Importadores de Produtos Populares (Abipp), que possui 22 associados, estima que existam hoje 50 mil pontos de venda no país, que geram 200 mil empregos diretos. O faturamento do setor chegou a R$ 9 bilhões por ano, com a circulação de 160 milhões de produtos. Segundo a entidade, as vendas podem chegar a R$ 11 bilhões em 2007, graças a explosão recente do consumo.
“Do início do governo Lula para cá, o aumento da renda da classe baixa alavancou demais o mercado popular”, relata Jeick Nahmias, um dos donos da importadora Muito Brother. Conforme cálculos da LCA Consultores, o salário mínimo acumulou ganho real de 49,2% entre 2003 e 2007, graças aos sistemáticos reajustes promovidos pelo governo federal. Segundo Fábio Romão, economista da LCA, esse aumento se reflete principalmente na classe baixa, onde a indexação da remuneração ao valor do salário mínimo é maior. Ele também ressalta outros efeitos sobre a renda como os programas de assistência social, a formalização do trabalho (que remunera melhor que o mercado informal) e a boa evolução do emprego na indústria (que paga mais que comércio ou agricultura).
O comércio de produtos a R$ 1,99 surgiu no Brasil em 1996, após a abertura da economia, o Plano Real e a valorização da moeda. É uma cópia das “Dólar Stores” dos Estados Unidos, onde tudo é vendido por um dólar. No Brasil, a primeira loja desse tipo surgiu em Curitiba, no Paraná, mas a importação de produtos populares foi introduzida no país por empresários da Argentina. De origem judaica, muitos tinham experiência no comércio.
Segundo a Abipp, os argentinos trouxeram o conceito de mercado popular para o Brasil em 1995. Dois anos antes do início do Plano Real no Brasil, a economia da Argentina foi dolarizada, o que facilitou a importação de produtos populares. Quando a Argentina entrou em crise e governo confiscou o dinheiro da população alguns anos depois, os importadores já estavam com toda a estrutura montada e foi simples direcionar as mercadorias para o Brasil.
A iniciativa dos argentinos foi copiada por empresários brasileiros, que também possuem participação importante no segmento. A maior fatia do mercado popular, no entanto, hoje está nas mãos de chineses. Segundo fontes do setor, os chineses só chegaram ao Brasil entre 1998 e 1999, mas trabalham com uma escala expressiva.
“O produto popular tem muito volume e pouco lucro. É a quantidade que dá retorno”, ensina Noberto Levin. Um dos sócios fundadores da Abipp, Levin, que já trabalhava nesse ramo na Argentina, abriu sua importadora de produtos populares no Brasil em 1995. Ele se recorda que o real estava cotado a R$ 0,86 centavos de dólar na época. “Quando começamos, as pessoas perguntavam quando ia acabar a promoção”, diz Levin. Ele só deixou o negócio no ano passado.
Jeick Nahmias, da Muito Brother, também foi um dos pioneiros nesse ramo. Ele abriu sua importadora em 1994 com a ajuda dos pais e dos avós, pois tinha apenas 20 anos. Nahmias conta que teve contato com o conceito do R$ 1,99 quando fez intercâmbio nos EUA. Foi lá que conheceu fornecedores e resolveu apostar no negócio quando voltou para o Brasil. “Na época só se falava em importação. Meus pais tinham um atacado de confecção, mas com a valorização do real ficou difícil comprar produto da indústria nacional”, recorda.
Os importadores contam que o primeiro pólo de compras de produtos populares era Los Angeles, nos EUA, que importava os produtos da China e distribuía para a América Latina. Em 1999, na crise mais grave já enfrentada pelo setor com a desvalorização do real, os importadores tiveram que comprar produto direto da China para manter o negócio. Chegaram a pagar mais de R$ 4 por dólar na época, o que funcionou como uma “peneira” para o setor. Apenas as empresas mais organizadas sobreviveram.
Hoje o mercado vive um cenário mais promissor. Gustavo Dedivitis, presidente da Abipp, conta que recebe e-mails e telefonemas todos os dias de pessoas perguntando como montar uma importadora ou uma loja de R$ 1,99. Ele conta que os segredos do negócio são a mercadoria – novidades sem similar nacional pelo mesmo preço – e o ponto de venda – lugares de alta circulação de pessoas.
“Em função do amadorismo de 12 anos atrás, o setor carrega o estigma de sonegar impostos e de vender produtos de baixa qualidade e piratas. Hoje isso está longe da realidade”, defende Dedivitis. A Receita Federal informa que não possui dados isolados de sonegação no setor de produtos populares. Com o aumento da concorrência, os empresários resolveram sair da toca. Os grandes importadores de hoje enfrentam a concorrência de pequenos negócios, que atuam na informalidade e com custos reduzidos. É o preço do crescimento.
Sub-retrancas
Qualidade de importa melhora e atrai classe média
Na sexta-feira passada, Marilda Godoy estava percorrendo as lojas de R$ 1,99 da rua Teodoro Sampaio, no bairro de Pinheiros, em São Paulo, procurando um brinquedo para o aniversário do neto. Ela é pedagoga e estava em busca de um brinquedo educativo. Preocupada com as últimas notícias de risco de presença de substâncias tóxicas nos produtos chineses, dava preferência para itens de madeira. “Sempre olho a origem do produto”, diz Marilda. Mesmo assim, costuma comprar produtos importados. “A qualidade não é igual, mas, em alguns casos, vale a pena”, diz.
Recepcionista de uma loja de aluguel de trajes de festas, Patrícia Mendes aproveitava o horário do almoço da sexta-feira para passar nas lojas da Teodoro Sampaio. Ela afirma que entrou na loja de R$ 1,99 só para “dar uma olhadinha”, mas revela que “costumo comprar nessas lojas, porque os produtos são bons e os preços compensam”. Ela conta que consome, principalmente, utensílios domésticos e começou a olhar com mais cuidado as lojas de produtos populares quando se casou há seis anos.
Marilda e Patrícia são dois exemplos de consumidoras de classe média encontradas pela reportagem do Valor em lojas de R$ 1,99. Não há pesquisas oficiais sobre o assunto, mas importadores e lojistas que atuam nesse mercado acreditam que o perfil do consumidor de produto popular não está restrito à camada mais pobre da população.
“A qualidade do produto popular evoluiu muito nos últimos anos. Essa não é uma tendência apenas no Brasil, mas mundial. Os chineses melhoraram muito a produção sem aumentar os preços, porque os consumidores se tornaram mais exigentes”, diz Jeick Nahmias, um dos donos da importadora Muito Brother. Na sua avaliação, o Brasil sofre apenas um efeito “colateral” desse processo de mudança do mercado.
Ele conta que o Brasil representa um universo muito restrito de venda para os chineses. “Vendem para nós porque estão com as portas abertas”, brinca. Segundo Nahmias, não é incomum um pedido brasileiro ser deixado de lado pelo fabricante chinês, quando uma solicitação européia entra na fila. Os europeus operam em grande escala e não pedem desconto, graças à força do euro, diz o empresário.
Gustavo Dedivitis, presidente da Associação Brasileira de Produtos Populares (Abipp), afirma que, quando o mercado começou, a oferta de produtos se resumia a baldes, bacias e potes para cozinha. Hoje o mix de produtos se diversificou: brinquedos, utensílios domésticos, lembranças, papelaria, volta às aulas, despertadores, relógios, enfeites de Natal etc. O executivo ressalta que as festas de fim de ano representam mais da metade do faturamento anual do setor. (RL)
Indústria local também abastece varejo
Para abrir uma loja de R$ 1,99, a primeira providência do futuro comerciante, geralmente, era vender o carro. Com essa iniciativa, ele resolvia dois problemas: desocupava a garagem onde seria instalada a loja e levantava o dinheiro necessário para comprar a mercadoria. Segundo estimativa da Associação Brasileira dos Importadores de Produtos Populares (Abipp), 60% das lojas ainda são pequenas e familiares.
O negócio realmente parecia da China: baixa inadimplência, já que tudo é pago em dinheiro, e um giro alto, porque o volume vendido é grande. Gustavo Dedivitis, presidente da Abipp, estima que um bom lojista fature entre R$ 3 mil a R$ 4 mil por dia, com margem de lucro de 60%. Nos últimos três a quatro anos, no entanto, não tem sido tão fácil.
De acordo com Nelson Dib Júnior, diretor-comercial das lojas Econômica, o perfil do comerciante de R$ 1,99 mudou, depois de enfrentar dois grandes desafios. O primeiro foi a desvalorização do real em 1999, quando o dólar chegou a R$ 4,00 e muitas lojas fecharam as portas. Em meio à crise, o lojista teve de recorrer às indústrias nacionais e os importadores trouxeram produtos mais caros.
No vácuo deixado pelo produto importado na época, algumas empresas nacionais reduziram seus custos e conseguiram vender barato. Os potes de plástico para uso na cozinha – sucesso de vendas nas lojas de R$ 1,99 – hoje são majoritariamente nacionais. O frete cobrado na importação encarece os utensílios domésticos, porque, com formatos variados, esses produtos aproveitam mal os contêineres.
Essa movimentação trouxe o segundo desafio: alterou a estrutura de preços nas lojas. Hoje os itens vendidos custam a partir de R$ 1,99, podendo chegar a R$ 15 ou R$ 20. Com o fim do preço fechado, os pequenos comerciantes de bairro tiveram dificuldades com a contabilidade e com a administração do estoque.
Nesse cenário, surgem as primeiras “redes” de lojas de produtos populares. A Econômica possui cinco lojas, três no centro de São Paulo, uma em Santo Amaro e uma na cidade de Ribeirão Preto. A administração está instalada em um prédio no Largo São Francisco. Segundo Junior, a meta da companhia é abrir três novas lojas no próximo ano. Ele conta que a empresa estuda possibilidades no interior de São Paulo, onde a economia está crescendo com vigor.
A Econômica surgiu em 1997, com a abertura de uma unidade na rua Dom José de Barros, no centro da cidade. Júnior garante que é a primeira loja de R$ 1,99 de São Paulo. Nessa época, ele estava com 21 anos. “Sou descendente de árabes e sempre gostei de comércio. Visitei a loja que existia em Curitiba e me interessei pelo mercado”, diz.
Hoje a rede de lojas da Econômica emprega 160 pessoas, trabalha com um mix de produtos de 2,5 mil itens e vende parcelado em até três vezes quando a compra supera R$ 60. A maior loja da rede está no bairro da Freguesia do Ó e tem 600 metros quadrados. Segundo Junior, 60% do faturamento da rede hoje é obtido com produtos nacionais e 40% com importados. Há dez anos, os importados respondiam por mais de 70%.
Junior diz que o consumidor reduziu um pouco as compras, porque está endividado com outros produtos. Ele reclama que concorre com comerciantes informais que não pagam impostos ou direitos trabalhistas, mas revela o segredo. “Enquanto uma pequena loja compra 100 copos, nós compramos mil.” (RL)